What about us

Sei que não tive tempo suficiente para te conhecer. Mas não posso negar que você despertou em mim um resquício de sentimento que há muito não se ouvia falar. E de alguma maneira inexplicável eu acreditei que desta vez seria diferente. Não foi. Por mais que sua intenção não tenha sido me magoar. Mais uma vez eu vi meu coração ser partido em pedaços que rapidamente se espalharam pelo chão do meu quarto. Por algum motivo que desconheço, esperei que você seria diferente dos outros. Mas você não foi. E eu, mais uma vez, fui um idiota por ter me permitido sair da minha zona de conforto

É bem verdade que você também não teve tempo (ou vontade) de me conhecer como eu realmente sou. E isso também me deixou um pouco chateado. Não que tivéssemos muitos gostos em comum, ou que frequentássemos os mesmos lugares. Nem mesmo conhecemos as mesmas pessoas. Mas você me fez enxergar uma verdade diferente das outras que já encontrei por aí. Existe um brilho nos seus olhos que não se vê com frequência. E eu, por uma fração de segundos, me permiti ser absorvido por ele. Me permiti sonhar com uma possibilidade que, mais tarde, descobri que sequer existia. Mas que existia para um outro alguém que não era eu

Talvez eu tenha interpretado seus sinais da pior maneira possível. E por conta disso me agarrei a uma versão idealizada de você. Tudo bem, eu admito a culpa e não te responsabilizo por aquilo que EU senti. Acho que essas coisas acontecem, não temos o controle de tudo que nos cerca. E não tem problema se nos desencontramos, é a vida. Sei que é bem provável que estou lhe dando mais valor do que deveria. Afinal: eu não conheço o seu verdadeiro eu. Mas não consigo deixar de pensar que talvez, apenas talvez. Nós teríamos nos dado bem se tivéssemos a chance de nos descobrir e de nos autodescobrir

Independente de qual tenha sido sua escolha. Eu espero que, um dia, você seja capaz de se encontrar. E espero que, neste dia, você apenas seja uma lembrança feliz para mim. Não vou mentir que, agora, ainda me sinto um pouco desorientado pelos danos causados. Mas acredito que seja questão de tempo até recuperar a total sobriedade. Eu não sou mais um garotinho assustado que tem medo de abaixar a guarda. E definitivamente não vai ser por um coração partido que eu deixarei de me arriscar. Apenas preciso deixar você partir para longe da minha cabeça. Para que eu possa ter espaço no peito para respirar aliviado

P/ E.F. (12/10/2019, 21:27 horas)

Outsider

Não é segredo para ninguém que sou uma das pessoas mais reservadas que você possivelmente irá conhecer em sua vida – isso se, de fato, chegar a me conhecer um dia. E, dentre inúmeras inseguranças e questionamentos que habitam este pequeno ser, a única certeza que me resta, por ora, é a de que eu realmente não nasci para conviver com outros seres humanos.

Desde muito novo, quando tentei me enturmar com os demais de minha idade, carreguei comigo a estranha sensação de não pertencer ao mundo em que me via forçado a viver; como se pudesse observar o ambiente ao meu redor de uma forma diferente, de uma forma que todos os outros pareciam ignorar. Na verdade, sempre fui e me senti estranho – e isso, nas palavras alheias, me caracterizaram como o esquisito que deveria ser evitado.

Os anos se passaram, e após inúmeras tentativas frustradas de aproximação, não me restou outra opção senão afastar-me de todos aqueles que um dia fizeram parte do meu círculo. Assim, me acostumei a ser solitário, e como minha única companhia sempre foi a minha própria sombra, aprendi a apreciar o silêncio que me circundava.

A questão é que, por me sentir da forma como me sentia (e, diga-se de passagem, ainda sinto), meu organismo criou um batalhão de anticorpos que até hoje me impede de exercer confiança, seja própria ou nos outros. Inevitavelmente, quando me deparo com uma lacuna e consigo preencher esse vazio, meu subconsciente não perde tempo e me auto sabota, destruindo qualquer positividade restante.

Após conhecer um milhão de pessoas e me envolver em dúzias de relacionamentos que não terminaram como o esperado, abri mão de meus sentimentos e, após tanto lutar (e relutar), abracei o que parece ser o meu destino quando se trata de outros seres humanos ao meu lado. Não que eu tenha desistido do calor humano, mas, às vezes não há muito o que pensar quando se é um especialista em empurrar as pessoas para longe de você.

Sem o respeito e o pouco de atenção que gostaria de ter recebido daqueles que julguei estarem realmente próximos de mim (e que, afinal, não estavam), decidi enclausurar todos os vestígios do garoto frágil e vulnerável que se permitia ser magoado com tanta facilidade. O que eu consegui ao tentar ser bom e abrir meu coração, mesmo?

Dia após dia, noite após noite, vejo em meus contínuos momentos de solidão um pequeno reflexo do que o futuro gélido reserva para mim. Todavia, se antes eu me queixava por ser subestimado e incompreendido, agora eu estendo os braços e aceito definitivamente o encargo que me fora outrora passado e que somente agora sou capaz de compreender. Afinal: eu nasci para estar sozinho.

“Looks like the ultimate insider has become a total outsider”

5. Don’t panic

Após concluir a difícil missão de sobreviver à semana passada, tive o desprazer de passar por um fim de semana que parece ter durado apenas uma pequena fração de segundos. Tentando lidar com as dores que me assombraram incessantemente por esses últimos dias, desliguei-me do que estava perturbando meu coração e empurrei garganta abaixo uma infinidade de séries, filmes e desenhos animados que foram eficazes em me manter ocupado. Pelo menos até a noite de domingo.

Sucumbindo às incertezas que tem mantido meu sono ruim e à saudade da sua presença, acabei por me deixar levar pela negatividade que constantemente retorna para martelar a minha cabeça. Entregando-me às lágrimas e ao mesmo travesseiro que tem servido de consolo por estas últimas noites, pela primeira vez consegui entender um pouco do que você estava tentando-me dizer uma semana atrás. E, apenas talvez, consiga aceitar melhor o fato de que tudo isso possa chegar ao fim, por mais que este não tenha sido o planejado inicialmente. Sem pânico.

16/01/17, Augusto

4. Guns and horses

Passamos mais uma noite conversando, e por mais estranho que isso possa parecer, ter a sua atenção tem me ajudado a superar esta solidão (juro que não tive a pretensão de fazer esta rima ridícula!). Não que isso fosse alguma novidade pra mim, já que a sua companhia sempre me fez um bem sem tamanhos, mas, tem sido ótimo me relacionar contigo sem a pressão de “querer fazer tudo dar certo”. Continuo sim torcendo para que nossa situação se regularize, mas tenho me sentido muito mais espontâneo e à vontade contigo. Sinto como se estivesse me aproximando de quem costumava ser quando nos conhecemos, e espero que você também possa notar isso com o desenrolar dos dias.

Ah, e antes que me esqueça, uma boa notícia: meu estômago parou de relutar às minhas necessidades vitais. Parece que voltei a ter o total controle sobre o meu corpo, mais cedo do que poderia imaginar. Entretanto, admito que redobrei os meus cuidados com relação ao que estamos passando, pois sei que não é uma situação das mais positivas. Sei também que muitas das inseguranças de antes continuam te importunando, e por mais que eu tente deixar claro que “estamos indo bem”, fico com receio do que você possa estar sentindo.

Você continua sendo uma grande incógnita quando se trata do seu bem-estar, e isso me deixa um bocado temeroso. Tenho medo que você desista de nós dado à gravidade das circunstâncias, que apesar de compreensíveis, não fazem muito sentido para mim. É triste não ter você aqui comigo todos os dias, mas mais triste é não ter você na minha vida, mesmo que tão distante – geograficamente falando. Não falo da boca pra fora, pois você, assim como eu, sabe que é verdade.

Tenho tentado ser carinhoso enquanto respeito os nossos limites – o que, apesar de difícil, tem se mostrado bastante coerente para mim. As coisas têm tomado um rumo devagar, mas, pela primeira vez sinto que é pra valer. Estamos caminhando para nosso terceiro dia e, até então, não tivemos uma nova discussão. É, eu havia me esquecido do quão bom é me relacionar contigo sem os problemas idiotas que por vezes tiram a nossa paciência.

Pode parecer bobo, mas tenho me deitado com o coração um pouquinho menos pesado. Acredito que, como diz a música, “seja hora de tornar as coisas limpas, de darmos sentido a tudo e descobrir o que realmente somos. Eu sei que você foi queimado, mas cada chama é uma lição aprendida”. Você vale a pena. Você vale.

13/01/17, Augusto

3. On my mind

Após os tristes eventos da tarde de anteontem (a qual apelidei carinhosamente de “um dos momentos mais agonizantes da minha vida”), resolvi caminhar pelo segundo dia consecutivo. Tentando ignorar o cansaço do dia anterior e o desconforto de não conseguir me entregar de corpo e alma ao que estava fazendo, passei mais da metade do tempo sentindo saudade e ansiedade. Eu não sei bem o porquê, mas, cada ponto de referência abstrato (principalmente o simplório tronco de árvore cortado, vulgo, “majestoso cisne de madeira”) me lembrou aquele semblante tão radiante que eu não conseguia tirar da minha mente. Tudo tem sido sobre você, e por mais que eu tente mudar o foco do que se passa aqui dentro, esta não é uma tarefa das mais fáceis.

Provavelmente perdi algumas porcentagens da minha audição após abusar do volume dos fones de ouvido nestes últimos dois dias, mas como ela sempre foi ruim não cheguei a sentir qualquer diferença. Enquanto caminho tento me esquecer de todos que estão à minha volta, e música bem alta tem sido como uma grande e velha amiga. Nunca fui muito fã de cumprimentar pessoas na rua (principalmente as de que não gosto), e admito que “estar triste” tem justificado a minha falta de educação. Patético, mas de grande utilidade.

Eu já não sinto mais vontade de comer. Meu estômago ronca de fome por diversas vezes ao dia, mas qualquer coisa tem me deixado enjoado, então tenho evitado quase tudo. Minha concentração também não está das melhores, então é bem provável que os mais próximos (meus pais) tenham me sentido distante de suas conversas chatas e intermináveis. Não sei se a última tem a ver com a primeira, mas confesso que cheguei a me sentir um pouquinho mais desequilibrado que o de costume (nenhuma novidade para o Senhor Desengonçado aqui, é claro).

Tem chovido todos os dias, e por mais idiota que isso possa soar, algo me diz que o clima de lá de fora está de alguma forma relacionado com o daqui de dentro. Inclusive fiquei encharcado da cintura para baixo mais cedo, enquanto voltava do trabalho, e isso me deixou um bocado triste… me fez lembrar daquela vez em que tomamos uma chuva terrível e você ficou ainda mais bonito debaixo de tanta água. Como eu disse: tudo tem sido sobre você.

Conversar contigo ontem à noite foi, sem sombra de dúvidas, o melhor momento de todo o meu dia, e eu acho que não saberia descrever com palavras o quanto aquilo me deixou aliviado. De alguma maneira estranhamente confortável, ser correspondido me trouxe um pouquinho de segurança, e eu acho que isso aquietou as turbulências que tem acontecido aqui dentro. Pode ser apenas impressão minha, mas te senti menos triste, e isso me acalmou um pouco também.

Voltei a conversar com alguns amigos que não demoraram para perceber que eu estava mal, e admito que receber tanto carinho me fez sorrir com honestidade. Um deles, em especial, tem se preocupado muito comigo, e eu acho que jamais serei capaz de retribuir todo o apoio e atenção que tenho recebido desde a última terça-feira. Não que eu já não soubesse que nossa amizade de longa data fosse verdadeira, mas… fui surpreendido, e isso também me ajudou a me acalmar.

Não chorei hoje, apesar de sentir um pouco de vontade, mas é mais pela saudade que pelo medo do que o futuro nos aguarda. Estou começando a me sentir menos triste, e espero que continue assim.

12/01/17, Augusto